Em muitas gráficas, o desperdício do setup é associado apenas ao papel, filme, cartão ou outro substrato descartado até que o trabalho alcance o padrão aprovado. Essa é, porém, somente a parte mais visível da perda.
Enquanto a máquina ainda está sendo preparada, a operação também consome tinta, energia, horas da equipe, tempo do equipamento, produtos de limpeza e capacidade produtiva que poderia estar sendo utilizada em pedidos vendáveis. Quando o acerto apresenta instabilidade, ainda podem surgir novos custos com correções, retrabalho, descarte e reimpressões.
O impacto de uma única troca pode parecer limitado. Em operações com muitas versões, tiragens menores e vários trabalhos por turno, entretanto, esse valor se repete dezenas ou centenas de vezes ao longo do mês e passa a exercer influência direta sobre a margem.
Por isso, o setup não deve ser tratado apenas como uma pausa inevitável entre dois pedidos. Ele precisa ser medido como um indicador econômico e produtivo.
Quando o setup realmente começa e termina
Para calcular corretamente o custo do acerto, a empresa precisa primeiro definir quais atividades pertencem ao setup.
Uma referência prática é considerar o período entre a última unidade aprovada do trabalho anterior e a primeira unidade aprovada do trabalho seguinte.
Isso significa que o setup não termina quando a máquina volta a se movimentar. Enquanto o novo pedido ainda exige ajustes de registro, pressão, tensão, cor ou acabamento, a operação continua consumindo recursos sem gerar material vendável.
Dependendo do processo e da configuração da linha, podem fazer parte do setup:
- Limpeza da máquina;
- Troca do substrato;
- Preparação e troca de tintas;
- Montagem de chapas, clichês ou mangas;
- Substituição de cilindros e formatos;
- Preparação de ferramentas de corte;
- Ajuste de registro;
- Ajuste de pressão;
- Estabilização da tensão da bobina;
- Acerto de cor;
- Configuração de módulos de acabamento;
- Inspeção e aprovação inicial.
Estabelecer essa definição é essencial para que todos os turnos e operadores registrem o tempo da mesma maneira. Sem um critério comum, a comparação entre trabalhos perde confiabilidade.
O material descartado é apenas uma parte da conta
O substrato consumido durante o acerto costuma ser a perda mais fácil de identificar. Ele pode ser medido em metros, folhas, quilos ou área, dependendo do processo produtivo.
O cálculo básico é simples:
Material perdido por setup × custo unitário do substrato
Se uma troca consome 100 metros de um filme que custa R$ 2,50 por metro, a perda direta de material é de R$ 250.
Esse valor, isoladamente, não representa o custo completo. O substrato passou pela máquina, recebeu tinta, consumiu energia e mobilizou profissionais. Além disso, ocupou um período em que o equipamento não estava produzindo algo que pudesse ser faturado.
Para entender o impacto real, é necessário ampliar a análise.
Como calcular o custo de um setup
Uma fórmula prática pode reunir os principais componentes:
Custo do setup = material de acerto + tinta e consumíveis + tempo de máquina + mão de obra + energia + limpeza e descarte
Cada gráfica pode adaptar o cálculo de acordo com seu processo, seus materiais e sua estrutura de custos.
Substrato
O valor deve considerar a quantidade utilizada até a primeira produção aprovada e o custo real do lote.
Filmes, papéis, cartões, laminados e materiais especiais apresentam valores muito diferentes. Por isso, utilizar uma média geral pode esconder setups particularmente caros.
Tinta e consumíveis
A conta pode incluir:
- Tinta aplicada sobre o material descartado;
- Preparação e correção de cores;
- Vernizes;
- Adesivos;
- Solventes;
- Produtos de limpeza;
- Resíduos retidos em mangueiras, câmaras ou recipientes;
- Chapas, clichês ou outros consumíveis adicionais.
Em trabalhos com muitas trocas de cor, parte da tinta pode ser consumida no processo de limpeza e preparação sem chegar ao produto final.
Tempo de máquina
Mesmo sem gerar produção vendável, a máquina continua representando um custo.
O custo horário pode incorporar:
- Depreciação;
- Financiamento;
- Manutenção;
- Contratos de assistência;
- Softwares;
- Ocupação da fábrica;
- Custos indiretos;
- Consumo energético médio.
O cálculo pode ser feito da seguinte forma:
Minutos de setup ÷ 60 × custo horário do equipamento
Além do custo direto, existe o custo de oportunidade: enquanto a linha está sendo preparada, ela não está produzindo pedidos faturáveis.
Mão de obra
O cálculo deve considerar todos os profissionais envolvidos, e não apenas o operador principal.
Dependendo da operação, o setup pode mobilizar:
- Operadores;
- Auxiliares;
- Preparadores de tinta;
- Profissionais de pré-impressão;
- Controle de qualidade;
- Supervisores;
- Equipe de acabamento.
O custo é obtido multiplicando o tempo do setup pelo custo-hora de cada profissional participante.
Energia
O consumo varia de acordo com a tecnologia e a configuração, mas pode envolver:
- Acionamentos da máquina;
- Compressores;
- Sistemas de secagem;
- Cura UV;
- Bombas;
- Exaustão;
- Climatização;
- Equipamentos auxiliares.
A energia pode ser calculada separadamente ou incorporada ao custo horário da linha, desde que a empresa utilize sempre o mesmo critério.
Limpeza, descarte e retrabalho
O setup também pode gerar custos com:
- Produtos de limpeza;
- Armazenamento temporário de resíduos;
- Separação;
- Transporte;
- Tratamento;
- Destinação;
- Documentação ambiental.
Caso a instabilidade não seja identificada no acerto e avance para a tiragem, a perda pode incluir uma nova impressão, novos consumíveis, horas extras e até material que já passou pelo acabamento.
Um exemplo hipotético
Considere um setup com as seguintes condições:
- 120 metros de substrato a R$ 2,50 por metro;
- 0,8 kg de tinta e consumíveis a R$ 70 por quilo;
- 35 minutos de uma máquina com custo de R$ 850 por hora;
- Dois profissionais, cada um com custo de R$ 42 por hora;
- R$ 18 em limpeza e descarte.
Substrato
120 × R$ 2,50 = R$ 300
Tinta e consumíveis
0,8 × R$ 70 = R$ 56
Tempo de máquina
35 ÷ 60 × R$ 850 = R$ 495,83
Mão de obra
35 ÷ 60 × R$ 84 = R$ 49
Limpeza e descarte
R$ 18
Custo total estimado
R$ 918,83 por setup
Esse número é hipotético e não representa uma média do mercado. Sua função é demonstrar como diferentes componentes se acumulam em uma única troca.
Se uma operação com esse perfil realizasse oito setups por dia, durante 22 dias produtivos, o custo mensal ultrapassaria R$ 161 mil.
A dimensão do desperdício, portanto, aparece quando o custo por troca é multiplicado pela frequência.
Quanto custa o setup ao longo do mês
Depois de calcular o valor médio de cada acerto, a gráfica pode estimar seu impacto mensal:
Custo médio por setup × número de setups realizados no mês
O mesmo raciocínio vale para o material descartado:
Material médio perdido por setup × quantidade mensal de trocas
Uma operação que consome, em média, 100 metros por setup e realiza oito trocas por dia, durante 22 dias, utiliza 17.600 metros de substrato somente na preparação dos trabalhos.
Esse dado ajuda a explicar por que o tempo de setup se torna especialmente importante em ambientes com tiragens menores, mais versões e maior quantidade de SKUs.
Em tiragens longas, o tempo de acerto é distribuído por um volume maior. Quando os pedidos ficam mais curtos e frequentes, cada minuto e cada metro utilizado durante a troca representam uma parcela maior do custo total.
Desperdício previsto ou perda por instabilidade?
Nem todo material utilizado no setup representa necessariamente uma ineficiência.
Mesmo uma operação bem controlada pode precisar de uma quantidade mínima de substrato e tempo para:
- Colocar a máquina em condição de produção;
- Estabilizar o processo;
- Ajustar variáveis;
- Verificar o resultado;
- Obter a aprovação inicial.
Esse consumo pode ser chamado de desperdício previsto ou perda técnica do acerto.
O problema aparece quando o volume necessário começa a superar o padrão esperado.
A perda por instabilidade pode ser provocada por:
- Correções repetidas de registro;
- Variações de tensão;
- Dificuldade para estabilizar a cor;
- Pressão inconsistente;
- Parâmetros não armazenados;
- Materiais fora de especificação;
- Diferenças entre operadores;
- Preparação incompleta;
- Falhas mecânicas;
- Retomadas após interrupções.
Para identificar essa diferença, a gráfica precisa estabelecer referências por família de trabalho.
Se uma aplicação conhecida costuma ser aprovada com 60 metros, mas determinadas execuções consomem 120, os 60 metros adicionais indicam uma variação que merece investigação.
Quais indicadores acompanhar
A gestão do setup não precisa começar com um painel complexo. Um conjunto simples de dados já pode revelar onde estão as principais oportunidades.
Por trabalho
Tempo até a primeira unidade aprovada;
Metros, folhas ou quilos utilizados;
Tinta e consumíveis gastos;
Número de correções;
Profissionais envolvidos;
Causas dos ajustes;
Custo estimado do acerto.
Por turno ou período
- Quantidade de setups;
- Custo médio por troca;
- Tempo total da máquina em preparação;
- Percentual do turno dedicado a setup;
- Desperdício total;
- Variação entre operadores;
- Variação entre materiais;
- Desempenho de trabalhos repetidos.
Além da média, é útil acompanhar a mediana, o melhor resultado e o pior resultado. Alguns setups muito longos podem distorcer a média e esconder problemas concentrados em determinados produtos, substratos ou equipes.
A repetibilidade reduz o custo das repetições
Um trabalho já produzido não deveria precisar ser reconstruído integralmente sempre que retorna à máquina.
Registrar e recuperar informações como tensão, pressão, velocidade, registro, curvas de cor, sequência de tintas e configuração do acabamento pode reduzir o tempo necessário para reencontrar o padrão aprovado.
A repetibilidade depende da combinação entre tecnologia e método.
Não basta que o equipamento seja capaz de armazenar parâmetros. A operação precisa documentar corretamente os trabalhos, manter critérios de aprovação consistentes e garantir que os materiais utilizados nas repetições sejam compatíveis com os registros anteriores.
Quando essas condições são atendidas, o histórico deixa de ser apenas uma referência e passa a contribuir diretamente para a redução do tempo de preparação.
Como a automação pode atuar no setup
Recursos de automação podem interferir em diferentes etapas do acerto, dependendo da tecnologia e da configuração da máquina.
Entre eles estão:
- Pré-registro;
- Ajuste automático de pressão;
- Controle de tensão;
- Posicionamento automático;
- Controle de cor;
- Lavagem;
- Preparação paralela;
- Armazenamento e recuperação de receitas;
- Inspeção em linha;
- Correções automáticas durante a produção.
Esses sistemas podem diminuir intervenções manuais, reduzir o material consumido até a aprovação e melhorar a estabilidade entre trabalhos.
O resultado, entretanto, não deve ser tratado como universal. A redução depende do processo, do substrato, da quantidade de cores, da aplicação, do treinamento e da integração com as demais etapas da produção.
A automação amplia a capacidade de controle, mas não substitui materiais adequados, manutenção, padronização e uma equipe preparada para utilizar os recursos disponíveis.
Registro, tensão, pressão e entintamento
Diferentes variáveis podem influenciar diretamente o tempo e o material consumidos durante o setup.
Registro
Ajustes de registro garantem o alinhamento entre cores, imagens, cortes e outros elementos. Quando o processo é instável, correções sucessivas podem prolongar o acerto e gerar material descartado.
Tensão
Em linhas alimentadas por bobinas, variações de tensão podem causar deformação, desvio de registro e instabilidade tanto na impressão quanto no acabamento.
Pressão
Pressão inadequada pode gerar falhas, excesso de ganho, desgaste ou reprodução inconsistente, exigindo novas correções.
Entintamento e cor
Receitas, curvas e parâmetros armazenados reduzem a dependência de ajustes baseados apenas em tentativa e erro. O resultado, porém, também depende de fatores como viscosidade, temperatura, anilox, chapas, clichês, substrato e critérios de medição.
Controlar essas variáveis ajuda a transformar o setup em um processo mais previsível.
Reduzir o setup melhora a rentabilidade e a sustentabilidade
A relação entre desperdício, rentabilidade e sustentabilidade é direta.
Cada metro descartado já incorporou matéria-prima, energia, transporte, tinta, processamento e trabalho humano.
Quando a gráfica reduz o material necessário para aprovar um pedido, diminui ao mesmo tempo:
- O custo de produção;
- A geração de resíduos;
- O consumo de tinta e energia;
- A ocupação improdutiva da máquina;
- A necessidade de retrabalho;
- O risco de atraso.
Isso significa que a sustentabilidade não começa apenas na destinação do resíduo. Ela também está presente na capacidade de evitar que o recurso seja desperdiçado durante a produção.
O objetivo não é eliminar qualquer perda técnica, algo que pode ser inviável em determinados processos, mas reduzir a variação e aproximar cada setup do melhor resultado que a operação já consegue alcançar.
O setup precisa deixar de ser uma perda invisível
Muitas gráficas conhecem o volume descartado, mas não relacionam esse dado ao custo de máquina, equipe, energia e capacidade produtiva.
Sem essa visão completa, o setup pode parecer uma etapa operacional inevitável, quando na realidade representa uma das principais oportunidades de melhoria da margem.
O primeiro passo é medir de forma consistente. O segundo é separar o consumo previsto das perdas provocadas por instabilidade. A partir daí, a empresa pode avaliar padronização, treinamento, manutenção, armazenamento de parâmetros, automação ou modernização do equipamento.
Quanto maior o número de trocas, mais relevante se torna cada minuto economizado e cada metro preservado.
A Rotatek Brasil atua de forma consultiva na análise de aplicações, processos, volumes, substratos e necessidades produtivas, ajudando gráficas e convertedores a identificar tecnologias capazes de ampliar a estabilidade, a repetibilidade e o aproveitamento da produção.
Fontes
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What Is FIRST? — Flexographic Technical Association https://www.flexography.org/what-is-first/
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REGISTRON S 6100 — BOBST https://www.bobst.com/oce/en/products/gravure-printing/registron-s-6100
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