Durante muito tempo, sustentabilidade foi tratada como um tema de posicionamento institucional. Relatórios, selos, compromissos públicos e narrativas ESG conviviam, quase sempre, à margem das decisões reais de produção.
Em 2026, essa separação deixa de existir.
A pressão por sustentabilidade chega definitivamente ao chão de fábrica, impulsionada por auditorias mais rigorosas, políticas de compras mais duras e exigências técnicas que não se resolvem com discurso. O que passa a importar não é a intenção ambiental, mas a arquitetura do processo produtivo: tinta, cura, energia, temperatura, solvente, resíduos e evidência operacional.
Nesse novo cenário, conceitos como Zero COV deixam de ser argumento de marketing e se tornam decisões de engenharia.
ESG versus engenharia: onde a sustentabilidade se torna concreta
A principal mudança está no deslocamento do eixo decisório. Sustentabilidade não é mais avaliada apenas por indicadores agregados ou compromissos futuros, mas por critérios técnicos verificáveis.
Auditorias e áreas de compras querem respostas objetivas:
Qual é o nível de emissão do processo?
Há uso intensivo de solventes?
Como ocorre a secagem e qual o consumo energético associado?
O ambiente fabril é seguro e controlado?
Existe documentação e rastreabilidade desses dados?
Quando essas perguntas entram no processo de homologação de fornecedores, a sustentabilidade deixa de ser uma pauta de comunicação e passa a ser requisito de fornecimento. É nesse ponto que a discussão migra do ESG para a engenharia.
O que significa Zero COV na prática industrial
COVs (Compostos Orgânicos Voláteis) são liberados principalmente em processos baseados em evaporação de solventes. Em linhas convencionais, grande parte da energia, do tempo e do risco operacional está associada justamente à necessidade de secar a tinta por evaporação.
Na prática industrial, “Zero COV” passou a ser utilizado como atalho para descrever processos de impressão que eliminam o solvente como etapa central de secagem, substituindo evaporação por cura por energia.
É importante ser preciso: o conceito se aplica ao processo de impressão e cura, não a toda a cadeia química. Ainda assim, a mudança é estrutural. Ao retirar o solvente da equação produtiva, o impacto vai muito além da emissão ambiental.
Tintas sólidas, UV-LED e EB: o que muda no processo
Tintas 100% sólidas e cura por energia
Em sistemas convencionais, a tinta precisa “secar”. Em sistemas energy-curable, a tinta polimeriza instantaneamente quando exposta à energia adequada, transformando-se em sólido sem depender da evaporação de solventes.
Isso reduz drasticamente as emissões no processo e altera toda a dinâmica da linha.
UV-LED: eficiência energética e controle térmico
O UV-LED representa um avanço importante porque combina cura rápida com menor consumo energético e menor carga térmica no substrato. Para filmes sensíveis e aplicações que exigem estabilidade dimensional, isso significa menos deformação, menor variação e mais previsibilidade.
Além disso, a cura instantânea reduz gargalos de secagem e amplia a velocidade útil da linha.
EB (Electron Beam): cura profunda e baixa migração
A tecnologia EB utiliza feixe de elétrons para promover a polimerização, dispensando, em muitos sistemas, o uso de fotoiniciadores. Isso permite cura profunda, alta confiabilidade e aplicação em estruturas que exigem baixa migração, especialmente relevantes em embalagens para alimentos, cosméticos e produtos sensíveis.
Em termos de processo, EB opera com emissões mínimas de COV e alto nível de controle.
Ganhos operacionais que vão além do ambiental
O erro mais comum é tratar a sustentabilidade como custo adicional. Na prática, a migração para processos de baixa ou mínima emissão de COV costuma gerar ganhos operacionais diretos.
Energia e produtividade
Menos secagem térmica significa menor consumo energético e menor tempo improdutivo. A cura instantânea permite produzir mais trabalhos por turno, com maior estabilidade.
Substratos e qualidade
Menor aplicação de calor reduz riscos de deformação, encolhimento e instabilidade, especialmente em filmes plásticos. Isso se traduz em melhor registro e menor variabilidade entre lotes.
Segurança e ambiente fabril
A redução de solventes impacta diretamente a segurança do trabalho, diminuindoinflamabilidade, exposição ocupacional e complexidade de armazenamento e exaustão.
Aplicações críticas
Em segmentos regulados, como alimentos e farmacêuticos, baixa migração e controle de odor deixam de ser diferenciais e passam a ser requisitos técnicos.
Sustentabilidade aplicada, nesse contexto, é eficiência mensurável.
Por que auditorias e compras já estão exigindo isso
O endurecimento não vem apenas da regulação ambiental. Ele nasce da convergência entre:
políticas globais de compras sustentáveis,
auditorias de fornecedores cada vez mais técnicas,
exigências de documentação e evidência operacional,
e um ambiente regulatório que avança na gestão de emissões e riscos.
Áreas de compras já não perguntam “se” a empresa é sustentável, mas como o processo funciona. E auditorias exigem provas: dados, registros, especificações técnicas e rastreabilidade.
Nesse cenário, soluções baseadas apenas em compensação ou discurso perdem espaço. O que conta é a estrutura do processo produtivo.
Sustentabilidade como arquitetura de processo
Em 2026, sustentabilidade não é uma causa paralela à operação. É parte da engenharia da linha.
Migrar para processos de baixa ou mínima emissão de COV não é apenas atender a uma demanda ambiental. É reduzir risco regulatório, aumentar eficiência, melhorar segurança e fortalecer a posição competitiva diante de clientes cada vez mais exigentes.
Zero COV, quando tratado com seriedade técnica, deixa de ser promessa. Vira decisão industrial e vantagem real para quem entende que o futuro da impressão passa pela integração entre desempenho, conformidade e responsabilidade operacional.
Fontes
BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Materiais em contato com alimentos – princípios gerais e requisitos regulatórios.
BRASIL. Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA). Resoluções sobre controle da poluição do ar e fontes fixas.
BRASIL. Lei nº 14.119/2021 e marcos regulatórios relacionados à gestão de emissões e mercado de carbono (contexto de políticas ambientais e industriais).
European Printing Industry Federation (INTERGRAF). Environmental impact of printing processes and VOC reduction strategies.
RadTech Europe. UV and EB curing: sustainability and performance benefits.
Smithers. The Future of Flexographic Printing to 2028 – capítulos sobre sustentabilidade, UV/EB e eficiência energética.
Instituto de Tecnologia de Alimentos (ITAL / CETEA). Tintas, migração e segurança emembalagens para alimentos.